Harry era um coordenador de projetos. Vivia para resolver problemas. O último foi insolúvel: Harry bateu as botas; foi dessa para uma melhor; tá mortinho da silva. Ninguém percebeu ainda. Ele está em seu cubículo, silencioso como quase sempre. Debruçado sobre o teclado, parece dormir. A tela do micro exibe o gráfico Gantt que ele atualizava quando morreu.
Jenifer apareceu para confirmar a reunião das 10. Notou que algo estava errado só na quarta vez que chamou Harry, tocando seu ombro. Pela temperatura do pescoço sacou que o cara estava realmente morto. Lembrou-se imediatamente da rodinha que se formou em torno da máquina de café logo após a reunião do dia anterior. Sentiu um frio na espinha quando recordou a jura que fez para meia dúzia de testemunhas: “Ainda mato esse $%&”. Deixou o cubículo se certificando de que ninguém havia reparado sua presença ali.
Jenifer é analista de negócios. Os 5 meses e 18 dias de convívio com Harry foram, segundo suas próprias palavras, “um inferno”. Se arrependeu de ter sugerido a adoção de um modelo iterativo e incremental para o desenvolvimento do projeto. “Melhor seria ter ficado aqui apenas um mês, escrito do jeito que desse todos os casos de uso e me mandado para outro projeto”. Harry lhe roubou a ideia e fez um curso de 8 horas de ScrumMaster. Voltou com o certificado e algumas conclusões: “A ideia do Scrum é muito boa. Só não curti muito esse papo de ScrumMaster, Product Owner e coisa e tal. Vamos adotá-lo, mas eu seguirei sendo GP. E tenho dito!”
Harry fazia questão de participar de todas as reuniões com o cliente. Jenifer funcionava mais como sua secretária do que como analista de negócios.

Arnie é um dos três programadores plenos (pero no mucho) alocados no projeto. Com espinhas no rosto e bonequinhos japoneses em sua mesa, vivia irritado com Harry. Reclamava do “clima opressivo” do projeto. Não suportava mais as 4 horas extras diárias e as manhãs de sábado trabalhando, coisa que Harry chamava de “esforcinho extra”. Algo que ele compensaria, dependendo do sucesso do projeto, “com uma bela feijoada no Bar Brahma. Por minha conta!”, prometia o falecido.
Arnie nunca manifestava suas opiniões para o coordenador – tremia de medo dele. Aos pares sempre acusava as sugestões “malucas” e o risível domínio técnico de Harry: “O cara sabe de Java tanto quanto eu manjo de culinária peruana”. As piadinhas de Arnie nunca mereciam uma risada espontânea, mas todos os programadores concordavam com suas críticas.
Passou pelo cubículo do Harry para perguntar, pela terceira vez, se a data de encerramento da iteração realmente mudaria. Todo mundo achava aquilo uma loucura e Harry nunca era conclusivo. A verdade é que nenhuma iteração até aquele momento havia respeitado o plano original (que previa ciclos de 30 dias). Arnie tremeu muito quando percebeu que seu silencioso interlocutor estava mortinho. Agachou e elaborou 100 planos para escafeder-se sem ser notado. Saiu engatinhando e entrou no cubículo ao lado, da gata Jenifer, simulando a busca pela lente de contato que ele nunca usou. Nem notou as cruzadas pernas torneadas de tão nervoso que estava.
Eis que chega o Capitão, bufando. É o gerente da área comercial e já avisou que não toleraria mais reclamações do cliente. Esperava desde a noite anterior por uma versão atualizada do arquivo do ‘project’. O cliente falou que não pagaria mais nenhuma parcela se não visse uma “evolução” do projeto. Harry e Capitão acordaram que o envio do ‘project’ talvez funcionasse como calmante. Não sem antes discutirem, por 3 horas e 17 minutos, sobre os problemas do projeto. Harry dizia que o cliente não sabia o que queria. E reclamava que sua equipe era muito “júnior”. Capitão, entre um tapa e um murro na mesa, lembrava que nunca vira, em 30 anos de carreira, um projeto de software sem problemas. No ápice do papo, lá pelas 8 da noite, gritou para quem quisesse ouvir: “Se esse projeto não der lucro eu te mato, safado!”
Boa parte da remuneração do Capitão vinha de um naco do lucro de cada projeto comercializado. Ou seja, há tempos ele vivia com a corda no pescoço, contas penduradas e um salário mínimo. A empresa resolveu que comissões ‘normais’ estavam apenas contribuindo para o aumento do prejuízo dos projetos. E concluiu que a participação nos lucros incentivaria maior colaboração da área comercial nos projetos, “gerenciando relacionamentos. Afinal, esses técnicos são muito ruins de papo”. Capitão bufou, acatou e enviou o currículo atualizado para 47 empresas.
Capitão gritou uma, duas, três vezes. “Não é possível que agora esse @#$ resolveu dormir aqui!”. Com um safanão fez a cadeira girar, o que mostrou meia face do pobre coitado e morto Harry. O olho esbugalhado dizia tudo.
Jenifer e Arnie aproveitaram o escândalo para dar e livrar suas caras: “Capitão, você matou o Harry?” A pergunta saiu em uníssono e em volume suficiente para ser ouvida em todo o andar. Logo estavam todos ali, pescoços sobre as divisórias do cubículo, rostos de espanto e comentários inteligentes sem champanhe nem cicuta. “Jura? O Capitão matou o Harry?”
Ninguém gostava do Harry. “Mas matar o cara! Meldels… onde vamos parar?” As meninas choravam um choro nervoso. Os rapazes, com seus modernos celulares, espalhavam a nova para toda a agenda de contatos. Ninguém sabia o que fazer. Capitão estava estático, catatônico, com cara de bobo. Jenifer e Arnie ainda o fitavam, acusadores e aliviados.
O ramal do Harry tocou. Identificador de chamadas: “Amorzinho”. Todos que estavam próximos trocaram olhares, esperando que um herói tomasse a iniciativa de atender ao chamado. Ninguém teve coragem e depois do 13º toque o telefone silenciou. Para tocar de novo 30 segundos depois. Identificador de chamadas: “Esse cara não tem mãe”.
“Xi… agora é o freguês”, disse alguém.
Capitão atendeu, mandando bala: “Ô Xerife, você sabe que mora eu meu coração, não?”. Silêncio constrangedor de dois minutos e meio. Todos sacaram que o Xerife, o cliente, desfilava seu repertório de impropérios nos acostumados ouvidos do Capitão. Do nada, o gerente comercial resolveu mudar o rumo da conversa: “Querido, por favor, me diz uma coisa: você mandou matar o Harry? Porque, veja bem, se foi você, eu gostaria que você soubesse que todos aqui consideraram a decisão mais acertada para que finalmente a gente possa estar providenciando a otimização de nosso processo orientado ao…” tum, tum, tum…
Epílogo
Foi no velório que todos ficaram sabendo que Harry não foi assassinado. Sofreu uma parada cardíaca fulminante. “Também”, disse Jenifer, “o cara se alimentava mal e não fazia exercício nenhum! Não aguentava um lance de escadas”. Arnie lembrou que havia dois meses que Harry parou de fumar: “Não adiantou nada.” “Pudera, o cara tava mascando 60 chicletes de nicotina por dia!”, assuntou outro. Capitão consolava o Amorzinho dizendo que Harry era o melhor coordenador de projetos que ele conheceu em 30 anos de carreira. “Pena que não suportou a pressão”.
E Harry não conseguiu o que queria quando veio para a “Top Down**”, com o diabo ter. Ele queria era falar pro Presidente pra montar um PMO e ajudar toda essa gente que só faz sofrer…
.:.
* O drama acima foi levemente inspirado num dos melhores filmes pouco conhecidos do Mestre Hitchcock, “The Trouble with Harry” (1955), que aqui em Pindorama é tratado como “O Terceiro Tiro”. As imagens utilizadas neste artigo foram indevidamente surrupiadas da Internet.
** A “Top Down” é uma software house de última geração fincada no meio do potencial vale do silício tupiniquim, leia-se Vale do Anhangabaú. Sediará outros dramas, com certeza. Infelizmente, sem nosso querido Harry.
Atualização em 3/Fev/10: As três batidas na madeira, dadas abaixo, não adiantaram muito. Eu deveria ter verificado anteriormente a coincidência com nomes, principalmente com a empresa. É preciso dizer que a Top Down do artigo acima, agora definitivamente fechada, não tem nada a ver com a empresa homônima sediada no Rio de Janeiro. Foi uma infeliz coincidência mesmo. E pelo meu descuido peço desculpas. Agora vou ter que inventar um novo nome para as futuras aventuras da trupe desenvolvedora.
Lembrete: salvo engano, ontem foi o Dia dos Gerentes de Projetos. Eu não ia homenagear-nos (ainda me considero um) com um artigo sobre as “maravilhas” da última versão do PMBoK, né? Fica para uma data mais propícia (ou menos perigosa).
Aviso: a história acima é pura ficção e bobagem. Qualquer semelhança com fatos, empresas ou pessoas de verdade deve ser mera coincidência. (3 batidas na madeira)

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Blog Post: O Problema com Harry* http://bit.ly/1O2oPb
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Hahaha, fantástica narrativa Paulo!
Paulo,
Só o primeiro parágrafo já vale o artigo:
Tem tanta mensagem aí, e de forma sutil…JÓIA! E no final ainda é dito “deve ser mera coincidência” rs Não me surpreenderia se você lançasse um romance (como nosso amigo Goldratt) pra falar de Análise de Negócios.
Parabéns pelo texto (inteligente). Pela forma e pelo conteúdo. Belo “tapa com luva de pelica”.
[]s
Shigueru.
O Problema com Harry* http://is.gd/4P4yw
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Estou chegando a conclusão que a experiência de alguns aqui deve ter sido com “tocador de projetos”, ou pior, com “feitores de projetos” à la “capitão do mato”… e não com gerentes de projetos de verdade …
Mas olhando pelo outro lado, estou chegando a conclusão que a experiência de alguns aqui dever ter sido com muitas equipes de desenvolvimento com alto grau de maturidade, avançados soft skills, capazes de auto-gerenciamento efetivo, e com muitos e excelentes Analistas de Negócios capazes de negociar e lidar com Diretores, Gerentes e Especialistas do Negócio num grau de confiança e credibilidade que os permitissem, de fato, obter alinhamento e sinergia para a realização de um projeto…
@Ivan e @Shigueru,
Obrigado pelos comentários!
@Marcel,
Cadê seu senso de humor, meu caro? Perdão, mas suas conclusões, pelo menos no que se refere às minhas experiências, não estão corretas.
Por favor, veja o artigo com outros olhos. Repare que Arnie, Capitão e até nossa querida Jenifer poderiam estar no lugar do Harry. Repare, principalmente, que todos foram criticados. Aliás, tudo foi criticado.
E não acho que sejam críticas vazias ou sem sentido. Tentei retratar coisas que vi e, infelizmente, vejo com muita frequência no mundo real. Resumindo: não ataquei (exclusivamente) os GP’s.
Abraços,
Paulo Vasconcellos
Pensa bem… o que era pra ser ‘quadrinho’, virou uma ‘mini-série’!!
O Capitão é personagem novo, né, não?
“todos aqui consideraram a decisão mais acertada para que finalmente a gente possa estar providenciando a otimização…” Humor fino…
Ainda que retrate um ‘mundo’ muito peculiar, qualquer leigo como eu percebe que se trata de um retrato verdadeiro e bem humorado dessa realidade. Muito rico.
Aguardamos os próximos episódios de ‘Top Down”.
Paulo, (e colegas)
me desculpe se pareci “azedo”. E não tinha intenção de direcionar para uma ou outra pessoa. Quando mencionei algumas pessoas “aqui”, não era neste post específico.
Talvez eu tenha interpretado errado as diversas discussões que vi nos últimos dias por este “Finito” afora.
Mas, sendo bem sincero, **me pareceu**, aqui, ali e acolá haver uma ojeriza um tanto quanto generalizada à figura do GP. O que me frustra um pouco, pois eu tenho lá minha percepção (e algumas ideias), sobre a complementaridade entre o papel de AN, GPs e arquitetos.
A minha frustração vem do “conjunto da obra” e não deste ou aquele post.
Estamos construindo pontes ou muros?
Além disso, alguns comentários sobre o que se espera de um GP demonstram desconhecimento ou inexperiência do que se deve esperar de um GP em diversas situações.
Acho até uma certa sacanagem limitar o seu trabalho a “controlador de cronograma”.
Quanto ao meu comentário, apenas quis chamar a atenção para isso: existem cenários e cenários. Se alguns têm a benção de lidar com equipes de desenvolvimento com um grau de maturidade para uma autogestão de fato, e que ainda por cima consiga entender do negócio, ótimo.
Um abraço, e, mais uma vez, desculpe se meus comentários soaram mal.
Pois é, Gus,
Depois de 5+ anos na gaveta, finalmente a “Top Down” deu as caras. Não da forma como eu gostaria. Mas é difícil escrever quadrinhos, meu caro. Quem sabe aparecem bons desenhistas e roteiristas para me ajudar…
@Marcel,
Seus comentários não “soaram mal” – apenas apelei para seu senso de humor. Por mais que você discorde, existem vários GP’s “controladores de cronograma” por aí. E de outros tipos também.
Se nos últimos tempos várias pessoas, inclusive eu, viramos nossas miras para os GP’s, não é por birra, falta de assunto ou qualquer coisa do gênero. O “Gerenciamento de Projetos”, como conhecido hoje, está desafiado. E isso não se aplica exclusivamente a projetos de software. Os GP’s seguirão defendendo um pseudo-status quo ou ouvirão o chamado (e as lamúrias)? Entenda: não é questão de ser “bom” ou “ruim”. É muito mais que isso.
Abraços e muito obrigado pela participação.
Paulo Vasconcellos
Paulo, não discordo que haja “controladores de cronograma”. Aliás, muitos que sequer sabem um conceito de EVM e outros não conseguem diferenciar uma WBS de um cronograma. A maioria não entende o conceito de “elaboração progressiva” e, como a maioria dos GPs é de origem exata (na formação, mas sei lá no nascimento), pouquíssimos se deram ao luxo de desenvolver as soft skills (não confundir com software skills), para poder gerenciar as pessoas sem as quais nenhum projeto anda.
Muito pouca gente se tocou que gerente deve “gerenciar” e não fazer – aliás, mesmo nos mundos dos gestores ditos funcionais, essa ficha ainda está caindo.
Na verdade, minha “discordância” está mais com relação à forma do que com o conteúdo. Junto-me à vocês na briga por uma melhor definição do Analista de Negócios, do Gerente de Projetos, do “PM Officer”, do arquiteto.
Mas, talvez por ter pego o bonde andando e querer sentar na janelinha, fiquei com a impressão que a Gestão de Projetos está na berlinda aqui no Finito. E foi aí que quis incitar à contextualização das coisas.
Entendo perfeitamente a defesa veemente do papel do AN. Vivi, junto com um grupo de ex-analistas de sistemas em uma grande empresa, um período das trevas em que, sem saber exatamente o que fazer com aqueles ex-AS que não tinham mais saco para SQLs e AJAXes, e uébicervices e xizmelês, mas que tinham trânsito entre diretores e gerentes e alguma visão além do alcance técnico. Nesse período das trevas, criou-se, quase que por medida provisória, sem a menor preparação espiritual ou conceitual, a figura do Analista de Negócio, quando essa denominação raramente aparecia nos sítios de recrutamento. Essa má gênese criou os muros entre nós e eles – ah, sim, os geniozinhos da informática, aqueles que conseguem falar quase que em hexadecimal (e ainda fazer piada com isso), mas que se deixarem sozinho, matam qualquer chance de relacionamento com as áreas de negócio (seja porque o cara da área de negócio se sente um idiota falando com esses geniozinhos ou porque estes prometem àqueles mundos e fundos). E ainda nos colocou em conflito com algumas áreas de negócio. Em mais de uma ocasião, eu e meus colegas ANs ouvimos a frase que passou a ecoar em nosso pesadelos: “vocês de TI não tem que questionar por que eu quero isso e qual o benefício. Vocês estão aqui para fazer.” Felizmente, até onde eu sei, com a entrada de um “déspota esclarecido” nessa organização, as coisas parecem estar mudando e não terei falsa modéstia ao dizer que, em parte, tive um pouquinho a ver com esse Renascimento. Mas no meu caso, e talvez por ser muito nextel, me custou alguma coisa. Gestores “mal-intencionados” preferem lidar com os “bonzinhos” da TI.
Na outra ponta, tive oportunidade de estudar e lidar (pouco é verdade) com métodos ágeis (Scrum) e reconheço o valor, respeitados os fatores críticos para o sucesso de sua utilização.
Graças aos Budas e, acho, um pouquinho graças ao meu bom senso, já no papel de GP sempre tive bom relacionamento com os ANs, até porque para mim é muito tranquilo valorizá-los.
Portanto, Paulo, a sua briga é também minha.
Abraços.
Marcel
E para não dizer que não tenho humor, achei essa paródia para nós todos. Devidamente surrupiada da rede.
Abraços
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“imagine”
imagine there’s no requirements. It’s easy if you try
just a bunch of coders, reachin for the sky
imagine all the people, coding for today
imagine there’s no schedules. It isn’t hard to do
no silly project deadlines, no one supervising you
imagine all the people, coding hand in hand
you may say I’m an extremer but I’m not the only one
i hope someday you’ll join us and make coding lots more fun.
imagine oral documentation. I wonder if you can
no need for UML diagrams. Just words passed, man to man
imagine just refactoring, playing in the sand
you may say I’m an extremer, but I’m not the only one
i hope someday you’ll join us and make coding lots more fun.