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Prioridades & Banalidades

É curiosa e perigosa uma dificuldade que vejo por aí com uma certa frequência: Equipes de projetos não sabem ou não conseguem dizer o que é prioritário. O escopo de projetos de software é tratado como um monolito. E a iniciativa vira um jogo de 8 ou 80 – de tudo ou nada. Segundo analistas e desenvolvedores, seriam os usuários os principais responsáveis pela falta de flexibilidade. Algo como: “se eu estou pedindo, então é prioritário”. Todos os requisitos¹ são recebidos e tratados como iguais. É difícil que algum tipo de projeto possa evoluir bem com tamanha rigidez.

A situação é curiosa porque não reflete nosso comportamento cotidiano. É natural que as pessoas considerem opções e definam prioridades quando vão fazer qualquer aquisição que comprometa uma fatia de seu orçamento. Pense na compra de um carro novo, por exemplo. Você define o que é fundamental, como marca, modelo, potência e cor. Elege itens importantes como o trio elétrico, tipo de combustível, airbag etc. Por fim, lista os opcionais que você só comprará caso o bolso permita, como o MP3 player com entrada USB, DVD para as crianças etc.

Software é muito maleável. Qual o motivo, então, para tratá-lo de forma tão inflexível? Desconfio que a culpa não seja só dos usuários. Aliás, desconfio que eles não tenham culpa nenhuma nesta questão. Não na maioria das vezes.

Quando utilizamos um processo que prevê a “coleta” (sic²) de todos os requisitos nos momentos iniciais do projeto, implicitamente estamos dizendo para os usuários: “fale agora ou cale-se para sempre”. Parece natural que os usuários tentem se lembrar de tudo. Que eles tentem entuchar de *tudo* naquilo que chamamos de escopo. Assim como é natural a reciprocidade. Ou seja, se eles só tiveram uma chance para falar, também darão apenas uma chance para a equipe entregar *tudo* o que eles pediram. Mas, apesar de ser irritantemente comum, o sintoma acima foi apresentado de maneira simplista porque explica apenas uma parte do problema.

Muitos analistas e desenvolvedores se comportam como “tiradores de pedidos”. Vão conversar com os usuários e se limitam a registrar, vírgula por vírgula, *tudo* o que eles pedem. Se desconhecem o negócio, seus objetivos e o problema em questão, os analistas não apresentam condições de criticar o que está sendo pedido. Acontece que em algumas empresas os analistas não têm o direito de criticar. Será que um dia eles serão cobrados por terem o dever de criticar?

A visão crítica e criativa aplicada ali, no nascedouro dos requisitos, é que permite uma priorização realmente eficaz. E esta visão só existe quando há um bom entendimento do negócio.

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Como o papo é longo e anteontem eu prometi artigos mais curtos (e frequentes), o papo seguirá em posts futuros. Inté!

Observações

  1. Caso seja de sua preferência, leia “histórias” (ou User Stories) onde escrevi “requisitos”.
  2. O termo “coleta” é muito ruim. Dá a impressão de que os requisitos estão lá, prontinhos e maduros, como tangerinas no pé. Na realidade nós *aprendemos e desenvolvemos* requisitos, sempre com os usuários.
  3. A imagem utilizada, Arch, é da Tanakawho – talento que libera suas obras no Flickr com licença Creative Commons.