Continuação de “Como Priorizar Projetos, Influenciar Decisões e Não fazer (muitos) Inimigos“.
Encerrei o último artigo sugerindo que todos os projetos que toquem, melhorando ou criando, processos primários do tipo diretamente vinculado à proposta de valor (perfil estratégico) de uma organização devem ser considerados prioritários. Esta decisão, por si só, joga para um segundo plano algo entre 70% e 90% das demandas que uma empresa costuma apresentar. Basta? Claro que não, e por isso estamos aqui.
Antes, que tal tornar a sugestão acima um pouco mais visual? O diagrama ao lado apresenta três blocos horizontais, cada um representando um tipo de processo de negócio. Mostra também três colunas, A, B e C, que devem ser utilizadas para separar os três tipos de processos primários: Operacionais, de Gestão de Clientes e de Inovação. Ficará na coluna A aquele mais relevante para a empresa. Por exemplo: se sua proposta de valor é o menor custo total (“vendo baratinho”), então a coluna A representará os processos primários do tipo Operacional.
Portanto, o eixo X representa a relevância estratégica dos processos de negócio. O eixo Y, em três estágios, representa o valor daquele processo e respectivos projetos para o negócio. Quanto mais alto no gráfico, maior é o valor daquele processo ou projeto. Valor? O que é isso? Quem o define?
Segundo o Houaiss, além de representar o “preço de um produto ou serviço”, valor também pode significar a “importância que se atribui a algo ou alguém”. É esta segunda definição que nos interessa aqui. Um processo de negócio e seus respectivos projetos podem ter maior ou menor importância para uma empresa. Mas, afinal, o que determina a importância (valor) de um processo? Os grandes objetivos do negócio. Aqueles que, formalmente ou não, representam a Visão do Negócio.
Sinto ter que fazer um breve desvio aqui, porque acabo de entrar em um tema que ainda suscita algumas dúvidas. Ainda há uma certa confusão entre os termos Visão e Missão. Visão é o fim; Missão é o meio. A visão sempre tem um prazo de validade – ela deve ser renovada de tempos em tempos. A missão deve representar apenas a razão social de uma organização, o que ela está prometendo fazer pela sociedade. O exemplo que mais cito de declaração de missão eficaz e clara é da Google: “Organizar todas as informações do mundo e facilitar o acesso a elas”. Se a empresa de Mountain View durar cem anos, é provável que mantenha intacta sua declaração de missão. Já sua visão é renovada a cada triênio ou trimestre, dependendo de suas necessidades e de seu sucesso.
Mesmo quando uma empresa não formaliza seus objetivos na forma de uma Visão, o fato é que um fim existe. Reside aqui boa parte dos problemas que afetam muitas empresas hoje em dia. A falta de uma visão consistente e bem divulgada faz de uma organização uma bagunça. Ela pode estar repleta de colaboradores bem intencionados, mas é uma bagunça. Serei o milionésimo cara a citar “Alice”, de Lewis Carroll: “Se você não sabe para onde quer ir, então é indiferente o caminho que venha a seguir”. E colaboradores bem intencionados e pró-ativos trilharão caminhos mil. Perdidinhos da silva.
Uma boa visão deveria listar poucos objetivos de forma clara e não ambígua. Objetivos de negócio são melhor organizados na forma de árvores hierárquicas¹, onde ilustramos a contribuição de metas e objetivos menores para a realização de algo maior. A visão deveria concentrar apenas aqueles itens que formam a raiz desta árvore. Ou, no máximo, o primeiro nível de quebra.
É muito mais fácil gerenciar e medir o sucesso de projetos que se comprometem com objetivos de negócio bem claros.
Vamos supor que um dos objetivos expressos na visão de uma determinada empresa seja o aumento de 30% da margem ou rentabilidade das vendas. É um de seus objetivos para 2011. Não há neste caso uma iniciativa única que possa atingir este alvo. A empresa sabe que só um conjunto de projetos e mudanças² pode ajudá-la nesta realização. Utilizando o último diagrama como apoio, vemos que a empresa precisa disparar quatro grandes iniciativas e cada uma tem uma meta específica. Só o completo atendimento dessas metas resultará no aumento de 30% da margem das vendas. Neste exemplo as metas são:
- Aumentar base de clientes ativos em 15%
- Reduzir giro de clientes em 25%
- Reduzir prazo de entrega de 5 para 2 dias úteis
- Reduzir o turn-over de vendedores em 50%
Se considerarmos que o único grande objetivo desta empresa exemplo para 2011 é o aumento de sua margem de vendas, devemos aceitar que todo e qualquer projeto que não contribua diretamente para a realização de uma das metas acima é de baixo valor. Repito: todo e qualquer projeto³. Por outro lado, todas as iniciativas que provarem de maneira inequívoca sua relação com uma ou mais das quatro metas acima devem ser classificadas como prioritárias.
Agora você, atencioso que é, deve estar pensando: “Ok, já aprendi a separar o que tem valor daquilo que é bullshitagem pura. O autor apelou, utilizando como exemplo uma empresa que tem um único grande objetivo para o próximo ano4. Tudo bem, facilitou o entendimento. Mas, se eu entendi bem aquele último rabisco, eu vejo ali 13 ‘bolinhas’ que devem representar outras metas e, possivelmente, outros projetos. Esses 13 projetos são prioritários? Devo tratá-los da mesma maneira?”
A pergunta é boa. A resposta, só no próximo capítulo. Inté!
.:.
Observações:
- Eu prefiro um tipo bem especial de ‘árvore hierárquica’ que atende pelo nome de Balanced Scorecard (BsC para os íntimos). Aliás, legal mesmo é a representação de BsC’s com UML. Se você conhece a ferramenta, percebeu que no exemplo utilizado, mais precisamente na lista de 4 metas, apliquei a lógica de construção dos BsC’s. Hehe.. bobeira: só utilizei a sequência de perspectivas. No próximo capítulo eu falarei um pouco mais sobre isso.
- “Projetos e mudanças”. Este trecho deveria ser considerado um pleonasmo: todo projeto representa uma mudança. Toda mudança deveria ser administrada como um projeto? Creio que sim.
- Calma. O fato de um projeto ser de baixo valor não significa que ele não seja prioritário. Por exemplo: uma exigência legal ou para atendimento de algum padrão. Seu valor para o negócio é baixo mas ele será prioritário. Mais sobre isso no próximo artigo.
- Desconfio que toda boa empresa, independente de seu porte ou ramo de atividades, mantém algo entre 4 e 6 grandes objetivos. E os revê e renova anualmente, mesmo em tempos de turbulência. Mas eu gostaria de ver exemplos que comprovem ou detonem essa desconfiança.
- Utilizei outro free-cartoon de HikingArtist.com, desta vez “Looking for a Needle”.

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Olá Paulo,
Confesso que ao “folhear” sua nova apostila (que visualmente ficou bem bacana), a parte sobre Visão e Missão me chamou a atenção. Justamente o trecho aqui repetido: “Visão é o fim; Missão é o meio.”. E lembro que no FAN que participei, para mim essa frase não desceu redondo.
Creio que sua melhor explicação sobre Missão deveria ater-se apenas a: Missão é sua razão social. Já a Visão, é um marco futuro (uma aspiração) na vida da empresa, que a direciona ao cumprimento de sua Missão.
Daí o porquê da discordância sobre “Visão é o fim”. Missão é o fim. Missão deve representar a FINalidade da empresa perante a sociedade. Qual a Missão de sua empresa? A que fim destina-se sua empresa? Por exemplo, “Ajudar organizações e suas equipes a conceber, conduzir e concluir mais e melhores projetos. ” não se encaixa nisso?
[]s
Shigueru.
Oi Shigueru,
Eu entendo a confusão – também demorei um tempinho para assimilar essa definição de Visão e Missão. Mas repare bem em sua interpretação de Visão: “Marco futuro”. Não é também um fim, um horizonte?
Missão é apresentada como meio porque é a maneira pela qual a empresa alcançará seus objetivos (a Visão).
Por fim, preciso registrar as fontes de onde tirei esta definição:
.Execução Premium, de Kaplan e Norton (Campus, 2009);
.BMM – Business Motivation Model, padrão aceito pelo OMG que agora em maio/2010 liberou a versão 1.1.
Espero ter ajudado.
Abraços,
Paulo Vasconcellos