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+Requisitos: Os Atributos

+Requisitos: Os Atributos

Nos dois capítulos anteriores foram apresentadas as funções – o que um sistema deve fazer – e formas de descrevê-las. A conversa de hoje é sobre atributos, tudo o que caracteriza um produto ou sistema.

 

A literatura técnica tradicional costuma tratar atributos como requisitos não funcionais. O termo é ruim e causa certa confusão. Funcional é um adjetivo. Em nosso curioso domínio, não funcional não é sinônimo de disfuncional. Não pode ser. Ninguém pede por algo que não funcione. Recentemente outros nomes foram propostos, como Requisitos Transversais. Esta série adota a nomenclatura sugerida por Gerald Weinberg e Donald Gause em Exploring Requirements¹ (Dorset House, 1989). É deles uma diferenciação bem clara entre funções e atributos: “Um Porshe 911 Carrera tem mais ou menos as mesmas funções de um Fiat 147, mas muitos, muitos atributos diferentes.

Atributos são características ou qualidades. São expressos na forma de adjetivos ou advérbios. Dada uma função, é imenso o número de possibilidades de realizá-la. Os atributos reduzem as alternativas e apontam o caminho desejado.

Dependendo do produto/projeto, a diversidade de atributos pode ser considerável. Pense em um carro, por exemplo: econômico, versátil, seguro, potente, bonito, moderno e ecologicamente correto são alguns requisitos comuns. Cada um deles demanda explicações e estudos bastante específicos. Para sistemas de informação, a lista de tipos de atributos é igualmente extensa: usabilidade, performance, disponibilidade, segurança, confiabilidade, portabilidade, eficiência, manutenabilidade, reusabilidade e flexibilidade são alguns deles.

Quatro perguntas nos ajudam a começar e direcionar a prosa:

  • Quais características farão desta uma excelente solução?
  • Você já usou algo parecido antes? Se sim:
    • O que mais lhe agradou?
    • O que mais lhe irritou?

São várias as formas de registro deste tipo de requisito. É difícil indicar a melhor. Mas é muito fácil identificar uma ruim: é aquela onde tudo (funções, atributos, restrições e regras de negócio) está misturado e descrito na forma de texto corrido. Se os requisitos são tratados assim, não surpreende que os sistemas sejam macarrônicos, porcamente acoplados e de cara manutenção.

Cada tipo de atributo merece tratamento específico. Requisitos de usabilidade, por exemplo, são mais bem expressos na forma de protótipos e storyboards. E por que não registrar requisitos de dados em dicionários de dados e modelos E-R? O fato é que, na maioria das vezes, as transcrições textuais representam puro desperdício.

Balanço

Bom, bonito e barato: escolha qualquer par. Este dito ilustra bem outro desafio no trabalho com atributos. O cliente ou usuário não pode ter tudo. É dever de quem desenvolve os requisitos informar sobre as inevitáveis permutas – explicar que a ênfase em determinada característica pode significar perdas em outros pontos.

Karl Wiegers, em Software Requirements (Microsoft Press, 1999), desenvolveu uma matriz que ilustra impactos positivos e negativos entre os principais atributos de qualidade. A ênfase em reusabilidade, por exemplo, gera reflexos positivos em diversos outros atributos, como flexibilidade, interoperabilidade, portabilidade e manutenabilidade. Por outro lado, resulta em impacto negativo no custo de desenvolvimento. O balanço ideal não ocorre por acaso. Experiências e testes dos pontos mais críticos e de possíveis conflitos é nada menos que uma obrigação de quem desenvolve a solução.

Restrições

Vimos anteriormente que todo e qualquer requisito merece ser enriquecido com um pequeno conjunto de informações. Uma delas é o Valor do requisito, que pode ser representado por uma escala simples como Fundamental, Importante e Opcional².

Todo atributo valorizado como fundamental torna-se uma restrição. Como nos ensina o dicionário, uma restrição é uma imposição de limite. Ou seja, é algo que deve ser respeitado na íntegra pela solução. Demais atributos, de menor valor, podem e devem ser negociados.

Devemos separar as restrições em dois grandes grupos:

  • Do Sistema: delimitam as fronteiras da solução;
  • Do Projeto: determinam limites do projeto como prazo e custo, por exemplo.

Cada grupo tem um público específico: o primeiro interessa aos arquitetos e desenvolvedores; o segundo é de quem vai gerenciar o projeto. É curioso como muitos não percebem este segundo grupo como sendo requisitos. Sempre foram. Sempre serão. E geralmente eles são explorados logo no início de um projeto.

Igualmente curiosa é a confusão entre restrições do sistema e regras de negócio. Quando alguém classifica “o usuário deve estar logado no sistema” como uma regra de negócio a coisa está feia, muito feia. Porque é muito fácil evitar a confusão: desligue o sistema; aquela restrição segue valendo? Então ela é uma regra do negócio. Simples assim.

Preferências

A diferença entre o desapontamento e o deslumbramento não é uma questão de entrega, mas de quão bem o produto entregue satisfaz expectativas. Weinberg & Gause
O papo sobre restrições, sejam do projeto ou do sistema, costuma incomodar. É uma conversa fria, racional. Mas necessária. Afinal, não existem projetos sem restrições. Para que um evento (entrevista, reunião) de desenvolvimento de requisitos não termine de forma chata, deixamos para o final um assunto mais quente: as preferências de clientes e usuários. Fazemos duas perguntinhas básicas:

  • Qual é a sua maior expectativa em relação a esta solução?
  • Que parte da nova solução será mais valiosa para você?

As respostas devem permitir o destaque das funções e atributos que merecerão maior atenção. O trabalho de gerenciamento de requisitos não pode ser visto como uma coisa mecânica – tá pronto / não tá pronto. Gerenciar requisitos significa, em grande medida, gerenciar expectativas.

 

Notas

  1. Este livro foi publicado no Brasil em 1991 pela McGraw-Hill com o título Explorando Requerimentos de Sistemas. Está esgotado, mas pode ser encontrado nos sebos da vida. A edição eletrônica foi dividida em duas partes. Trata-se do mesmo texto original.
  2. Existem n variações de escalas para avaliação e priorização de requisitos. Como sugerido anteriormente, podemos utilizar a escala de Fibonacci. O método MoSCoW também é bastante conhecido.
  3. A série aproxima-se do fim. Enfim! Além dos famigerados exemplos, o que mais você gostaria de ver por aqui? Qual tema merece mais alguns dedos de conversa?