Sobre Hierarquias, Modas e Ripongos

A edição #1070 da revista EXAME (06/ago/2014) apresenta a seguinte chamada de capa: “Gestão: a moda agora é a empresa sem chefe”. O artigo, assinado por Patricia Valle, mereceu o título “Nasce a Gestão Riponga”. O veredito, indisfarçavelmente negativo, aparece logo de cara. Era para tanto? Até que ponto um artigo assim, cínico e irônico, realmente colabora para um debate construtivo?

O mundo dos negócios assiste, não é de hoje, a inúmeras tentativas de respostas para a dinâmica e complexidade crescentes. O artigo teria começado muito bem se partisse da regra máxima dos novos tempos¹: “Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis”. Nenhum dos entrevistados diz que uma empresa “sem chefes” é uma panaceia, muito pelo contrário. Já os casos mencionados – Zappos, Spring Mobile Solutions e Odebrecht – deveriam servir como belas provocações. Assim como a citada pesquisa que revela que para 63% dos executivos brasileiros “a estrutura hierárquica das áreas cria obstáculos para a produtividade”.

Um modelo que pretenda “atacar o excesso de hierarquia” deveria ser mais bem tratado. A autora preferiu fechar o artigo assim: “Grupos com certa autonomia para criar, respondendo a um chefe, que responde a outro chefe, e por aí adiante. Talvez seja esse o meio-termo que vai sobreviver quando a modinha da gestão riponga passar”. Meio-termo? Modinha da gestão riponga?

Como já falou um detestado prefeito, “ querem uma revolução sem mexer em nada!” A própria EXAME não cansa de mostrar o quão preguiçosas e/ou travadas são nossas organizações. Seria possível mudar isso sem questionar culturas, estruturas e processos de gestão?

A jornalista poderia ter se preparado melhor, lendo Ricardo Semler (qualquer livro), Gary Hamel (O Futuro da Administração, O Que Importa Agora?), Dave Gray (A Empresa Conectada) e Patrick Hoverstadt (The Fractal Organization), para ficar em alguns exemplos. Mas, pensando bem, talvez não adiantasse muita coisa. Algumas ideias e pré-conceitos estão tão enraizados que não têm mais cura. Nem se o chefe mandasse.

Notas

  1. Evolutionary Operation, de George Box e Norman Draper (Wiley, 1969).
  2. Can hierarchy and sharing co-exist?, a imagem utilizada, é de opensource.com.