Conquistando o Mundo

Conquistando o Mundo

No início eram as trevas do código de máquina. Nos rebelamos e criamos interpretadores e compiladores. Insatisfeitos com a ditadura dos editores genéricos, demos à luz as nossas IDEs. Brincamos com bibliotecas de componentes nunca reutilizados só porque pareciam uma boa distração.

Mas havia algo de insano em nosso reino. Éramos comandados por gente que não entendia nossas línguas. Pior: eram pessoas que tinham muita dificuldade em perceber valor em nossos patterns, frameworks e afins. E que, apesar disso, achava que podia impor checkpoints, deadlines e um método de trabalho. Insano…

Criamos nossos métodos e desinventamos os gerentes. Gente criativa precisa de E S P A Ç O, sabe? Você acha que Bach, Kubrick e Malmsteen tinham restrições de prazo, orçamento e escopo?

Ficamos fortes. Afinal, software roda o mundo. Nada mais justo que seja assim.

Então nos deparamos com outra barreira. Mais perniciosa que os gerentes. Mais sufocante que a mamãe. Mais desmotivadora do que papo de gente do RH. Tínhamos mesmo que trabalhar para o negócio dos outros? Essa gente não tem visão. Aliás, não tem nem mesmo um Canvas que explique aquela bagunça toda. Representam um sistema complexo e não sabem nada sobre complexidade. Nunca tinham ouvido falar no Cynefin! Enfim…

Criamos nossos próprios negócios. Startups finíssimas, focadas no crescimento e na experiência dos clientes e no bem estar dos colaboradores e no rendimento dos acionistas e… Ágeis como prego no angu, com CEOs que não tropeçam no javascript, não se intrometem nos devops e sabem configurar hadoops. O paraíso na terra, bem representado em nossos escritórios descolados.

No paraíso surgiu uma cobra balbuciando ‘dinheiro’. Estamos condenados a nos deparar com gente que só traz restrições? Inventamos nosso próprio dinheiro! Toli-toli-tolá, a cobla ficou lá¹… Ou, para os pós-modernos: #chupacobra!

Agora surge essa gente inútil – políticos – falando em regulamentação. Eles não perdem por esperar…

As dicas do artigo anterior – Lendo o Amanhã – precisavam de um contraponto. Aqueles três livros, de uma maneira ou de outra, pintam um futuro muito bonito. Existem riscos. E eles não podem ser ignorados.

A pequena crônica acima foi inspirada por The Know-it-Alls: The Rise of Silicon Valley as a Political Powerhouse and Social Wrecking Ball (The New Press, nov/2017), de Noam Cohen. O autor descreve os riscos da perigosa combinação “da arrogância dos hackers com a ganância de empreendedores”. Não é nada condescendente com gente como Zuckerberg, Peter Thiel, Jeff Bezos, a dupla do Google e Marc Andreessen, dentre outros.

World Without Mind: The Existential Threat of Big Tech (Penguin, set/2017), de Franklin Foer, aponta especificamente para Amazon, Apple, Facebook e Google. E mostra como esses gigantes podem fazer muito mal. Aliás, já estão fazendo. Enquanto a Europa parece atenta e gulosa nas multas aplicadas, do lado de cá do Atlântico essas empresas nadam de braçada. E começam a participar do jogo político de todas as formas imagináveis. E além!

Um olhar de dentro, um pouco mais divertido mas não menos preocupante é oferecido por Antonio García Martínez em Chaos Monkeys: Obscene Fortune and Random Failure in Silicon Valley (Harper, jun/2016). Martínez trabalhou no Facebook e Twitter e descreve suas aventuras na região de San Francisco entre 2010 e 2014. Conta tudo e só não revela os nomes dos “verdadeiramente culpados”. Para protegê-los.

Pindorama não oferece ameaças. Não por falta de arrogância e ganância. Talvez seja só por carência de ideias mesmo. Mas a gente merecia: 1) receber os títulos acima em pt-br, não apenas aqueles que pintam horizontes cor de rosa; e 2) um livro sobre o lado negro da pseudo-força da TI nacional. Recife, Rio, Floripa, Blumenau, Fortaleza, Campinas, Itajubá, Sta. Rita, SJC, Sampa… todos pólos cheios de boas histórias. Basta de press-releases na imprensa chapa branca orientada ao jabá. A gente também aprende com o caos. E ainda pretende conquistar o mundo. Ou, se tudo der certo, aquele cantinho em Angra.

Notas

  1. Para quem não faz a mínima ideia do que estou falando: conheça a Cobrinha Azul.
  2. html php java source code, a foto no topo, foi compartilhada no flickr por Markus Spiske.