Checkup Ágil – Parte II

Checkup Ágil – Parte II

Como nós criamos e entregamos valor? Na primeira parte deste checkup nós conversamos sobre eficácia. Agora o tema é eficiência: criar e entregar valor do jeito certo. Como trabalhamos? Nosso método realmente ajuda? Calma, não é mais uma comparação entre Scrum e Kanban. Até porque ambos tropeçam no mesmo lugar.

A essência de nossos trabalhos é criar valor eliminando problemas. Nossos projetos, produtos e serviços são desenvolvidos para isso. A visão curta – imediatista, mecanicista e reducionista – nos leva a resolver problemas. Quase sempre isso redunda em paliativos e efeitos não previstos nem desejados. Ou seja, em mais problemas. Isso pode até ser um meio de vida: receitas recorrentes, como não? Pode ser um sonho para quem vende horas. E um caro e merecido pesadelo para quem as compra. Mas isso não pode ser a intenção de quem se propõe verdadeiramente Ágil.

Entre todos os grandes pensadores sistêmicos, Ackoff foi o mais incisivo¹: devemos dissolver problemas. Devemos redesenhar o sistema de forma a evitar reincidências e efeitos negativos. O Pensamento Sistêmico nos dá essa visão privilegiada: de longo alcance, inclusiva e obrigatoriamente atenta à dinâmica das relações entre todos e tudo o que está envolvido em dada situação.

O mundo Ágil, através de livros e propostas, gosta de apontar o Pensamento Sistêmico como uma de suas bases. É uma pena que, quase sempre, tal referência se limite a um capítulo ou nem isso². Pior ainda é quando o Pensamento Sistêmico é interpretado através de uma visão curta. Vira mera etiqueta que tenta dar ares de coesão e coerência para ideias frouxas. Nesses casos é sempre bom relembrar a Lei de Durden.

Retomando: como criamos e entregamos valor? Como trabalhamos? Estamos de fato dissolvendo problemas? Ou simplesmente criando outros?

Método

O Design Thinking, também derivado do Pensamento Sistêmico, foi feliz ao escolher um losango como representação de um jeito de pensar e eliminar problemas. E muito desastrado quando resolveu trocá-lo por um squiggle. Sigamos com o losango. Na primeira metade temos a compreensão. Na outra, criação. Na primeira metade criamos opções. Na outra, tomamos decisões. Convenhamos, isso é tão antigo quanto andar para a frente. O que o mundo do design nos deu foi uma imagem e termos sofisticados: movimento divergente, movimento convergente. No fundo isso é, sempre foi e sempre será uma sequência de ANÁLISE e SÍNTESE. Necessariamente nessa ordem³.

O losango perde sua utilidade quando nos deparamos com dois problemas. Primeiro: esse pensamento é linear. Os problemas que justificam os nossos salários e lucros não são eliminados assim. Eles pedem por iterações porque, como humanos, a chance de acertarmos na primeira tentativa é quase nula. Uma imagem bem melhor é a do semi círculo ornamentado por uma seta que aponta para o início e diz: vamos experimentar, aprender e tentar de novo. E de novo…

O segundo problema é a necessidade de uma segunda dimensão. Um eixo que nos permita separar o que é CONCRETO do que é ABSTRATO. Dados, fatos, pessoas e soluções são coisas concretas. Ideias, hipóteses, opções, oportunidades e experimentos são abstrações. Acabamos de ganhar mais uma matriz 2×2.

Quase todos os frameworks e métodos propostos nas últimas décadas apresentam, em seus próprios termos, a visão acima. O que não se encaixa ali é o jeitão antigo – linear, mecanicista e reducionista – de fazer as coisas. Até o ciclo PDCA (Plan-Do-Check-Act), por exemplo, não combina. Apesar de suas origens sistêmicas e, como tal, ser iterativo. OODA (Observe-Orient-Decide-Act), por sua vez, se encaixa perfeitamente. Se uso outros nomes é para aproximar o modelo de nosso contexto. OODA foi sugerido por um piloto de caças.

Talvez alguém queira apontar a coincidência dos quadrantes acima com aqueles do Cynefin: Descoberta é Caótica, Exploração é Complexa, Desenvolvimento é Complicado e a Entrega é Simples. A coincidência é feliz. Aliás, esse caminho seria feliz… se não fosse equivocado. Se o problema que pretendemos resolver é complexo, ele não deixa de sê-lo só porque se encontra em outro momento (quadrante) daquele ciclo.

No próximo artigo nós vamos esticar esse papo. E ver como Scrum, Kanban e derivados compartilham problemas semelhantes. Agora é hora de uma segunda rodada de nosso autoexame.

Autoexame

Como a sua organização CRIA e ENTREGA valor?

  • O trabalho executado no lado esquerdo do diagrama acima obedece ao mesmo ritmo e às mesmas restrições daquele que é executado no lado direito? As Sprints têm a mesma duração nesses dois hemisférios?
    Obs.: aos adeptos do Kanban deixo minha desconfiança de que o que chamo de lados esquerdo e direito são, respectivamente, o que vocês tratam como upstream e downstream Kanban. Mas vem coisa nova por aí, um tal Discovery Kanban. O nome não é mera coincidência. A necessidade, tardia, parece óbvia.
  • Você usa sprints 0, -1 e afins para tentar entender o problema?
  • Como são iniciados os seus projetos? Com Histórias de Usuários? Com hipóteses? Com planos?
  • Todas as hipóteses se tornam experimentos?

Qualquer SIM não é bom sinal.

Notas

  1. Dois trabalhos sintetizam bem as propostas de Russell Ackoff: Ackoff’s Best (Wiley, 1999) e, para os apressados, Differences that Make a Difference (Triarchy Press, 2010).
  2. Craig Larman e Bas Vodde vão um pouco além de um capítulo em Scaling Lean & Agile Development (Addison-Wesley, 2009) e Large-Scale Scrum – More with LeSS (Addison-Wesley, 2017). O mesmo pode ser dito sobre Managing the Design Factory (Free Press, 1997) e The Principles of Product Development Flow (Celeritas, 2009) ambos de Donald Reinertsen. No entanto, para perceber a aplicação do Pensamento Sistêmico como um todo e no todo (e como é estranho escrever isso) vale a pena ler The Journey to Enterprise Agility: Systems Thinking and Organizational Legacy (Springer, 2017) de Daryl Kulak e Hong Li.
  3. Aquela frase não seria necessária caso eu não tivesse me deparado com Essential Upstream Kanban, de Patrick Steyart. O cara tá falando que a síntese antecede a análise?!?
  4. 4 Windows, compartilhada por gmahender no flickr, ilustra este artigo.