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Desenhando uma Experiência

Desenhando uma Experiência

“Se você não está se divertindo, não está aprendendo.
Há prazer em descobrir coisas.

Richard Feynman

Você pode não concordar com o Feynman. Mas eu posso garantir que você já experimentou a sensação que ele descreve: concentrado em um desafio, você não estava nem aí para os bilhões de bits que brigavam pela sua atenção a cada segundo; a existência ou não de um prêmio no final da jornada tampouco importou – a motivação estava em ti; assim como o controle da situação. Você tinha noção do que buscava. Mal viu o tempo passar. Pense bem, você se divertiu. Houve satisfação e uma sensação única de bem estar.

Esse tipo de experiência – a ótima experiência – é o que Mihaly Csikszentmihalyi chama de Estado de Fluxo¹. Quando e enquanto nele recebemos prazerosas doses de dopamina, adrenalina e serotonina². E esta é, para o nosso corpo, a maior recompensa: o prazer.

Nós desenhamos um mundo tão maluco, mas tão maluco, que a associação dos termos aprendizagem e prazer é exceção. Para alguns soa como um disparate ou coisa pior. Para muitos é algo raramente experimentado. Seja na escola, na empresa ou até mesmo em casa.

Isso é um total contrassenso porque torramos bilhões de anos de evolução para sermos capazes de aprender e criar. Porque essas são as armas mais eficazes contra a mesmice eterna – a entropia. Mas nós tratamos de inventar as aulas chatas, as disciplinas obrigatórias, a decoreba, as provas e certificações. Aprender virou uma obrigação – deixou de ser um processo natural. Convenhamos, a auto-sabotagem parece ser a nossa maior especialidade.

Quebrando a Cara…

… enquanto tento aprender a ensinar a aprender. Um dia chamei de oficina o que era quase só um longo monólogo. Aprendi a desenhar exercícios e a fazer a turma trabalhar. Acredite, houve quem reclamou. Teimei e, há poucos anos, resolvi adotar a aula invertida: boa parte do blablablá teórico seguiria antes. Para que o encontro em sala fosse 80% prático. Isso pode funcionar com crianças e adolescentes. Com adultos, definitivamente, não é o caso. Porque quase ninguém estuda o material enviado previamente. Falta tempo, dizem.

Tempo. Nosso recurso mais valioso. O único que não recuperamos de jeito nenhum. Quase tão relevante quanto ele é a atenção. Coisa rara e cara na era das distrações infinitas.

Objetivo: oferecer uma ótima experiência de aprendizagem.
Para quem: você, que chegou até aqui.
Restrição: tempo.
Variável sensível (sob controle): preço.
Variável perigosa (incontrolável?): atenção.
Joguei tudo no liquidificador e cheguei ao ExP90.

Notas

  1. Flow – The Psychology of Optimal Experience. Mihaly Csikszentmihalyi (Harper Perennial | Modern Classics, 2008).
  2. Um resumo muito bom do Estado de Fluxo é apresentado por Daniel Levitin em A Mente Organizada (Objetiva, 2015). Que não merece ser lido só por isso.
  3. Mais do que a imagem acima, Piermario, via flickr, me presenteou com uma brincadeira: EXP* -lore, -and, -ose, -ress, -lain. Exp também é título de uma música do Hendrix, o que dispensa maiores detalhes.
  4. Mas a turma tem perguntado: como se pronuncia ExP90? Acredite, ainda não sei.