Precisamos Aposentar o Requisito

Re.qui.si.to s.m. 1 condição necessária para alcançar certo fim; quesito

Com pequenas variações, é assim que nossos dicionários definem Requisito. A engenharia, segundo a Wikipédia, entende requisito como uma “definição documentada de uma propriedade ou comportamento que um produto ou serviço deve atender.” Daí para entregável (sic) foi um pulinho. Um entregável inegociável, veja bem. Porque a explicação diz que o produto ou serviço “DEVE atender” aquela condição. 

Requisito nunca foi o nome ideal para embalar as necessidades, vontades e restrições de nossos clientes e usuários, muito pelo contrário. É um termo ruim pelo que significa – uma condição – que piorou com o uso. Passamos décadas culpando os requisitos e quem os verbaliza (e muda!) pelos problemas e fracassos em nossos projetos. Enfim, se palavra tivesse ficha corrida, a do requisito seria tão extensa quanto a especificação funcional dos infernos. O que nos impede de aposentá-la?

Substantivo Ruim atrai Verbos Horrorosos

Requisito é campeão neste quesito. Por exemplo: COLETAR REQUISITOS. Nós coletamos lixo; coletamos material para exames clínicos. Pra que colocar requisitos na mesma cumbuca? Além disso, o verbo coletar dá a entender que requisitos são como frutos maduros no pé. Coitados. Eles despencam de velhos. Maduros, nunca estão.

LEVANTAR REQUISITOS nos leva para um caminho diferente e igualmente mentiroso. Dos 15 (!) significados do verbo levantar apresentados no Houaiss, apenas um nos atenderia parcialmente: listar como resultado de pesquisa. Pesquisar ou investigar (inquiry) fariam melhor serviço do que listar. Quem lista parece estar tirando pedidos. Alguém tira requisitos?

Dados os mal entendidos e usos, uma turma legal daqui do Brasil achou por bem tropicalizar o verbo to elicit e assim ganhamos o ELICITAR (sic) REQUISITOS. Elicit significa tirar, extrair. A gente tira dentes e extrai leite de pedra. Mas não conseguimos arrancar requisitos não. Ou seja, abrasileirado ou não, o verbo é ruinzinho também. 

Não é curioso que a gente ignore a sugestão apresentada no título de um dos melhores livros sobre requisitos já escrito¹, EXPLORAR REQUISITOS? 

Eu costumo sugerir o DESENVOLVER REQUISITOS. Mas não adianta não. Porque requisito, na cabeça de muita gente, continua sendo um entregável inegociável.

Repare: uma disciplina com tantos anos de vida ainda busca por um verbo para chamar de seu. Dá uma certa vergonha, não dá? Insisto: o que nos impede de aposentar o termo requisito e seus verbos desajeitados?

Substantivo Ruim Não Funciona, Complica

Não funciona porque não explica. Ruim que é, acaba ganhando complementos igualmente ininteligíveis. 

Para descrever tudo o que um produto ou serviço deve fazer usamos a combinação REQUISITO FUNCIONAL. Teria sido bem mais simples falar FUNÇÃO. Mas houve um tempo em que as pessoas eram pagas pelo número de letras digitadas. Houve? Sei lá, é uma explicação plausível para tamanha complicação (19 toques ao invés de 6). Piora!

Porque todo produto ou serviço é repleto de ATRIBUTOS. Como a gente chama essas coisas? De REQUISITOS NÃO-FUNCIONAIS!?  

Se a Ideia Ágil nasceu para combater as complicações, e nasceu, então é questão de coerência a eliminação incondicional dessas aberrações. Elas são de outro tempo. 

Substantivo Ruim é imune aos bons Adjetivos

Não adianta apelar para REQUISITO ÁGIL. Imagina: REQUISITO ÁGIL NÃO-FUNCIONAL. Se esta foi uma tentativa de gerar um oximoro, tipo silêncio ensurdecedor, não funcionou; E não teve graça também não. Aliás, esse artifício de anexar o adjetivo ÁGIL quase sempre depõe contra o substantivo e todo o seu passado. Se bobear, compromete o seu futuro também. 

Enfim, parece que não há adjetivo que renove e dê esperanças para a palavra requisito. Requisito merece o mesmo destino do disquete, um museu. Ou o mesmo castigo do termo requerimento, ficar restrito ao uso por juízes e advogados. Precisamos aposentá-la. Neste caso, qual seria a melhor substituta?

HISTÓRIA

Kent Beck queria só assim mesmo: HISTÓRIA. Esse negócio de história de usuário veio depois. Desnecessariamente. 

Mas, por favor, entenda: História não é sinônimo de requisito. Não há uma relação 1:1 entre eles. Uma história pode conter ou esconder diversos requisitos. O que não faz dela um épico – outro engano comum. Uma história pode ser uma pequena crônica, um conto ou um grande romance. 

Requisitos nos dão a impressão de algo estático. São documentos entregáveis. São condições para a realização de um objetivo. Ponto.

Histórias são dinâmicas. Você não as levanta, não coleta e nem elicita. Histórias se desenvolvem. Elas são contadas. São feitas de personagens, ação e contexto. Histórias têm sentido!

Contamos histórias desde que a gente é gente. De certa forma, para o bem ou para o mal, elas nos ajudaram a chegar até aqui. Ainda bem!

Já pensou se a nossa evolução dependesse de requisitos ágeis não-funcionais misturados com regras de negócios em uma especificação funcional? 

Notas

  1. Explorando Requerimentos do Sistema foi como essa obra prima se chamou aqui no Brasil. De Donald Gause e Gerald Weinberg (Makron Books, 1991).
  2. Foto de Viktor Talashuk no Unsplash