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O que o ‘seu’ Moreira não Viu

ou “Em TI, o que os olhos não veem o bolso sente. E como sente!“.

Vimos lá no início do causo que o ‘seu’ Moreira repassou para o sobrinho e o contador a responsabilidade pelo acompanhamento do projeto. Em ‘tempo de proposta’, eles tiveram um único encontro com o analista da empresa que venceu a concorrência (por W.O., como vocês devem se lembrar). Hoje voltaremos exatamente para aquele momento, quando o analista solicitou um contato com os vendedores e não foi atendido.

Seguindo uma dica que ele aprendeu com um colega que participou de um tal de FAN, o analista decidiu que utilizaria aquelas quatro horas na empresa do ‘seu’ Moreira para elaborar uma grande ‘fotografia’ de 2km de extensão por 2cm de profundidade. A visão ‘do todo’ era crucial naquele momento. Ele não se preparou para a reunião – nem sabia o ramo de atividades da empresa. E, como vimos no último episódio, ele se atrasou pra caramba para a única visita.

O questionário aplicado, na base do improviso, deu origem a um diagrama rabiscado em uma folha A3. “A Toyota também usa A3, vocês sabiam?”, perguntou o analista para sobrinho e contador que não sabiam nada sobre a Toyota. Também desconheciam UML, a linguagem que teria sido usada na elaboração daquele estranho diagrama. “Mas dá pra entender, não dá?”, perguntava o analista após cada elemento rabiscado. “Aqui estão os vendedores e os clientes. Entre eles esta seta, que mostra o processo de vendas. Aqui tá o depósito e neste mini-diagrama de classes eu mostro como os seus produtos estão estruturados. Ah, o leite é matéria-prima de todos? Por que vocês não falaram antes? Mas é fácil, é só mudar essa seta aqui para mostrar que todos herdam tudo o que a gente definir para o leite, ok? Hã, você não entendeu? Esquenta não, depois eu explico melhor.”

Sobrinho e contador ficaram encantados com a desenvoltura do analista: “Ele aprende rápido, né?”. Mas interrompiam o papo toda vez que ele puxava um gadget de última geração de sua chique mochila: “Você vê os emails aí no celular é? Nossa!!!”. O analista bateu uma foto do A3 com seu ultra-super-mega celular e enviou por email. “Como o projeto é para ontem, uma equipe já vai analisando lá o que a gente tá conversando aqui”. O que o analista não contou é que ele mandou o email para ele mesmo. Não tinha nenhuma equipe “de retaguarda” esperando pelas suas informações.

Aliás, a equipe do projeto, no dia seguinte, resumia-se ao analista, seu chefe e o vendedor. “A proposta é para amanhã”, disse o aflito analista que, pelo andar da carruagem, sabia que ficaria com todo o trampo de elaboração. “Escreve a proposta técnica”, disse seu chefe, “que depois eu sento com o vendedor pra gente calcular o preço final”. Assim foi feito. Um “documento de visão / proposta técnica” de 10 páginas foi elaborado. O analista demonstrou através de um grande e colorido diagrama que existiam 5 grandes funcionalidades requeridas:

  • Elaboração da Agenda de Visitas
  • Mapa de Carga
  • Controle do Estoque dos Clientes
  • Venda / Faturamento
  • Relatórios Gerenciais Diversos

Além disso, ele destacou que seriam necessários módulos para: cadastramento de clientes, produtos, vendedores, rotas, veículos etc.

Após rápida negociação que resultou em um desconto de 27,5%, ‘seu’ Moreira contratou o projeto: Cinco meses de duração; Seis parcelas, sendo que a última só seria liberada após o aceite final do projeto. Imediatamente a empresa escolhida publicou 3 anúncios de vagas: 1 coordenador de projetos, 3 desenvolvedores ‘web’ e 1 DBA. Dez dias depois estavam todos reunidos com o analista para entender o projeto. Depois de fechado o negócio o analista havia agendado duas visitas para ‘coleta’ de requisitos. Foi apenas em uma, para “refinar o A3”.

A3 que foi mostrado para os 5 novos integrantes da equipe. “Tá bom”, disse o coordenador, “mas cadê os requisitos?”. O analista falou que estava esperando a montagem da equipe e, principalmente, a contratação do coordenador para organizar as tarefas de ‘levantamento’. O mais jovem dos 3 desenvolvedores foi escolhido para ajudar o analista. Os dois mais experientes ficariam na empresa fazendo o ‘setup’ do ambiente e desenvolvendo um ‘framework’. O cronograma prometia a entrega dos módulos de cadastro para 30 dias. “Afinal”, justificou o analista, “os caras lá não têm sistema nenhum. Alguém vai ter que cadastrar tudo. Assim a gente ocupa o cliente e pode trabalhar em paz”. Um dos desenvolvedores falou que, “com o framework, a gente faz os CRUD tudo numa tarde”. Não fizeram.

{continua}