Repensando a Análise de Negócios

Repensando a Análise de Negócios

Seria muita incoerência de minha parte se, após a palestra que apresentei no BA Brazil, seguisse tocando minha vidinha da mesma maneira. Aquelas provocações motivaram o maior redesenho que o Programa {FAN} já recebeu. O que, por sua vez, pediu por um rejuvenescimento deste {finito}. Não vou roubar seu tempo repetindo o que o programa já diz. Minha intenção neste artigo é outra. Que tal ver a Análise de Negócios de uma forma um pouco mais ampla?

Relembrando e reforçando as duas provocações que apresentei:

  • Não devemos seguir espalhando por aí que “o importante é que a Análise de Negócios seja realizada, não importa por quem”. Esta colocação, por bem intencionada que seja, gera dois efeitos muito negativos: i) parece diminuir a importância e simplificar (no mal sentido) a Análise de Negócios; e ii) deprecia todos que escolheram a Análise de Negócios como profissão. Pergunta (retórica): na ausência de analistas de negócios, como podem a profissão e respectivo corpo de conhecimentos evoluir?
  • Apesar de dever seu ressurgimento à TI, está chegando a hora da Análise de Negócios decretar sua independência. Por definição, analistas de negócios ajudam uma organização a descobrir e desenvolver soluções para problemas de negócios. Qualquer tipo de problema! Mas…

 

Definições Destroem

A definição destrói […] Não há nada definitivo neste mundo. – Bob Dylan
Não precisamos ser radicais como Dylan, mas é sempre saudável alguma reflexão sobre definições e nomes. Pense um pouco sobre o termo “Análise de Negócios”. Talvez você perceba, como eu (depois de monte de gente¹), que ele é ruim pra chuchu. Veja o que diz o Houaiss:

  • análise s.f. 1 estudo das diversas partes de um todo 2 investigação; exame
  • negócio s.m. 1 transação comercial 2 local onde se realiza essa transação 3 algo que não se sabe ou não se lembra o nome; qualquer coisa; trem (em mineirês e fora do Houaiss)

 

Pegando apenas o que nos diz respeito, podemos concluir que Análise de Negócios é “o estudo das diversas partes de um local onde se realizam transações comerciais”. O estudo por si só? Não faz sentido. Ou faz tanto quanto propor “a investigação de um trem“.

Reforço a definição que sugeri no início do artigo: “analistas de negócios apoiam a descoberta e o desenvolvimento de soluções para problemas de negócios”. Os analistas apoiam – o que significa que suas atividades nunca são um fim em si mesmas. Eles apoiam dois tipos de atividades: de descoberta e  desenvolvimento (de soluções para problemas de negócios). Veja o diagrama abaixo:

Análise de Negócios: Definição?

Análise de Negócios: Definição?

O losango já foi utilizado por vários autores para ilustrar o caminho para a solução de problemas, dentre eles Scott Berkun² e Tim Brown³. Berkun o chamou de “espaço do problema”. A figura indica que nós aumentamos esse espaço – cogitando e validando alternativas de solução – antes de selecionar, desenhar e construir a mais adequada. Brown nomeia as pontas do losango de maneira um pouco diferente. A primeiro seria de divergência – quando criamos escolhas, a segunda de convergência – quando fazemos escolhas. Quase escondo a provocação nas palavras entre parênteses: a análise – o estudo das diversas partes de um todo – é só parte do trabalho! Ela não tem sentido nenhum sem sua cara metade, a síntese. Houaiss:

  • síntese s.f. 1 reunião de elementos diferentes num todo coerente 2 operação intelectual que apreende o todo partindo dos elementos que o constituem 3 exposição abreviada e genérica; resumo

 

Se a análise é o estudo das partes, a síntese as combina na elaboração de um todo. Não há processo ou método para solução de problemas que não obedeça essa ordem. Exatamente por isso o termo “análise” é tão ruim¹. Não se trata de chatice de dublê de filólogo. Nomes e definições podem ser perigosos ou até mesmo destrutivos. Se não, como explicar que muitas empresas utilizem analistas de negócios apenas em 1/5 das funções sugeridas no diagrama acima?

Ainda não cheguei ao cúmulo de sugerir a troca do nome da disciplina ou da profissão. Não sou louco o suficiente. Apenas insisto para que a Análise de Negócios seja vista de forma mais ampla. Reparem, ela nem se limita ao losango no modelo acima. Existem outras três áreas, não limitadas aos projetos, que merecem o apoio dos analistas de negócios. São elas:

  • Gestão de Relacionamentos: se os analistas de negócios funcionam como uma ligação entre todas as partes interessadas de um projeto, é natural que se espere deles uma considerável contribuição na gestão de relacionamentos: gerenciamento de expectativas; resolução de conflitos; averiguação da satisfação de clientes e usuários etc
  • Gestão do Conhecimento: uma responsabilidade muito maior do que a danosa e usual percepção de que os analistas devem “documentar tudo”. Existem documentos – existe a necessidade deles, mas há algo muito maior sendo gerado a cada projeto, por menor que ele seja. É conhecimento novo. Algo que, se não for corretamente gerenciado, será desperdiçado.
  • Manutenção da Qualidade: algo que deve ser incorporado em toda e qualquer função. Os analistas de negócios têm condições de zelar não apenas pelo que desenvolvem, mas também pela qualidade de todo o trabalho executado em um projeto e fora dele.

 

Para Pensar e Repensar

Você pode estar perguntando, com razão, o que esse papo tem a ver com as duas provocações que abriram este artigo. Tudo:

  • Cabe um mundo inteiro na distância entre analistas de negócios e tiradores de pedidos. A Análise de Negócios lida com domínios cognitivos de maior dificuldade: Solução de Problemas, Análise e Síntese; Pensamento Criativo; Pensamento Sistêmico; Complexidade etc. Entender ou pretender que qualquer outro profissional possa executá-la, mesmo em projetos aparentemente mais simples, é ingênuo e perigoso.
  • Mais importante é entender que a Análise de Negócios não existe sem os analistas. A disciplina definhará se não houver quem a defenda e estude  como uma especialização.
  • Ao propor o modelo acima forço um distanciamento de TI. Até então utilizava disciplinas da Engenharia de Software – Modelagem de Negócios e Requisitos – para mostrar o que os analistas de negócios podem fazer. Elas seguem existindo e continuam importantes para os analistas. Mas devem ser percebidas como itens de uma caixa de ferramentas que precisa ser consideravelmente maior e mais diversificada. Todas as empresas estão carentes de bons solucionadores de problemas. Um time especialista em solução de problemas, qualquer tipo de problema, seria uma cartada e tanto. Você não acha?

 

Notas

  1.  Esse papo de Análise + Síntese é quase tão velho quanto andar pra frente. Só foi requentado neste artigo porque parece esquecido ou ignorado quando o assunto é a Análise de Negócios. Gerald M. Weinberg, falando para analistas de sistemas em “Redefinindo A Análise e o Projeto de Sistemas” (McGraw-Hill, 1990), já tinha feito o mesmo. Pelo que sei, Weinberg foi o primeiro a destacar o quão ruim é o termo “Análise” e a propor um tal Sintetista. Desta leitura derivei outra provocação: o analista de sistemas falando para o analista de negócios, “eu sou você amanhã”.
    Weinberg teve vários títulos publicados no Brasil mas, salvo engano, estão todos esgotados. Analistas de negócios deveriam ler todos que encontrar nos sebos da vida.
  2. Em “A Arte do Gerenciamento de Projetos“, Bookman (2008).
  3. Em “Design Thinking – Uma Metodologia Poderosa para”, Campus (2010). A editora deu uma bela barbeirada no título, tanto que temo pela  tradução. Se puder, opte pelo original: “Change by Design” (Harper Business, 2009).
  4. A Extensão Ágil do BABoK®, em fase de revisão pública, é muito feliz ao sugerir uma divisão muito parecida com aquela ilustrada pelo losango acima. Só há um termo diferente: Delivery (entrega) ao invés de Desenvolvimento.

 

  • Igor

    Oi Paulo,

    Quando penso em BMG, Lean Startup, Design Thinking, Pensamento Visual, Sistêmico e outras coisas novas me vêm a cabeça um corpo de conhecimento muito grande para gestão de produto.

    Encontrar restrições,solucionar problemas, pensar criativamente, no todo, produzir hipóteses, experimentar, reunir pessoas e partes, sintetizar e experimentar.

    Por outro lado, governança corporativa, manufatura lean, arquitetura de negócios, gestão de portfolio (de verdade), gestao por processos e mudança organizacional também me parecem outra especialização que cai muito bem com o mind-set do AN. Ou será que “puxamos” essas disciplinas para AN como intrometidos ?

    Abs!

    • pv

      Difícil fechar um conjunto, né Igor?

      Você percebeu, estou tentando “empurrar” a Análise de Negócios para domínios menos quadrados. Do segundo conjunto listado por ti, acho que manteria apenas os dois ou três últimos itens. Mas… onde?

      Este artigo, de abstrato e teórico que ficou, pede uma continuação. Quero citar disciplinas específicas para cada uma das 5 grandes funções que sugiro. Ainda assim, temo que fiquem implícitas algumas de suas sugestões. Vamos ver.

      Obrigado pela participação. Abraços!

      Paulo Vasconcellos

  • Jean

    Paulo

    Focando na sua provocação sobre a existência do papel do AN e foco exclusivo na realidade de consultorias de TI (as que conheço bem), penso o seguinte:

    Passei por algumas consultorias e esta figura, com esta abrangência que você citou, inexiste. Deixei de atuar diretamente como AN (pensando em função) simplesmente porque não encontrei empresas que dessem valor a função (inclusive financeiro).

    Por conta disto, hoje atuo como GP porém sigo utilizando todas as técnicas de AN no meu trabalho e , mais que isto, divulgando as técnicas de AN na equipe, mesmo sem que estes tenham a formalização do papel.

    Tem sido uma experiência ótima e com bons resultados, porém, concordo contigo que isto diminui bastante a importância da função e da profissão de analista de negócio.

    Quando tentei sugerir a formalização da função em uma outras empresa, apresentando um plano bem tangível de funções, fui ignorado.

    Em resumo, vejo que que nas consultorias de TI existem dois papéis:
    1 – quem desenvolve produtos correndo atrás dos prazos (programadores)
    2 – e quem se defende para o cliente quando o projeto atrasa, falha etc (GP)

    Abraços

    • pv

      Fala Jean!

      Pois é, eu sei que esse (amplo) Analista de Negócios ainda não existe, ainda mais em consultorias. Assim como sei, para minha tristeza, que os que existem são pouco valorizados.

      E tenho certeza de que essa valorização só vai acontecer fora dos domínios de TI. Existirão honrosas e raríssimas exceções.

      Agora, pedindo licença para dar pitaco no seu caso. A menos que você tenha um problema de dupla personalidade e saiba separá-las muito bem (a la Norman Bates), é um perigo ser GP com mente de AN ou vice-versa. Você incorpora o cara do SIM e do NÃO; o gerente e o que põe a mão na massa; o Gordo e o Magro. É cansativo e pouco gratificante, para não dizer que é arriscado e confuso (para os olhos de seus clientes e usuários). Sei que tens as melhores intenções. Assim como não duvido de sua competência. Mas não dá pra brigar mais um pouquinho por um minimo de estrutura? Perguntinha besta, né?

      Abraços! Obrigado pela participação.

      Paulo Vasconcellos

      • Jean

        Paulo

        Salvo alguma empresa com um DNA diferenciado, não acredito na atuação do AN de forma valorizada nas consultorias de TI.

        Não há muito o que se esperar delas.

        um abraço

        • pv

          Oi Jean,

          Concordo contigo, lamento e torço para que você monte ou encontre uma consultoria com DNA diferenciado. Aliás, como ela seria?

          No próximo artigo vou “brincar” com o redesenho de uma organização de TI. Quem sabe emendo uma “brincadeira” com consultorias. No mínimo, será divertido.

          Abraços! Obrigado pela participação.

          Paulo Vasconcellos

          • Érica

            Infelizmente o caminho que estou seguindo é o mesmo do Jean e pelos mesmos motivos. As consultorias continuam achando que somos analistas de requisitos, mas fiquei maravilhada quando você mencionou a questão de resolver problemas pq sempre brinquei que minha profissão era resolvedora de problemas e ando olhando pro mercado em busca de oportunidades de Gerente de Produto, então todos os comentários que colocam por aqui vão de encontro com as minhas angústias e com o que eu sinto de somarmos muito de marketing na nossa linha de racioncínio pra conseguirmos de fato atendermos os objetivos.

            • pv

              Oi Érica,

              Achei interessante sua solução: buscar uma oportunidade como Gerente de Produtos. Interessante e desafiadora: é que aqui no Brasil, particularmente em TI, este papel é um tanto raro.

              Obrigado pela participação. Abraços e boa sorte!

              Paulo Vasconcellos

              • Érica

                Eu estou tentando, dizer que eu estou conseguindo seriam outros 500…

                • pv

                  Érica,

                  só a iniciativa de buscar já merece parabéns. Mete bronca!

                  Abraços,

                  Paulo Vasconcellos

  • Murilo Pedroso

    Olá Paulo,

    hoje em dia realmente existem poucos analistas de negócios que fazem o que devem. O que eu vejo são empresas contratanto analista de negcios mas infelizmente elas querem um líder de projetos.
    Já passei por empresas onde o cargo na carteira de trabalho e como eu era identificado dentro da empresa era como analista de negócios, porém o que fazia era ser líder de projetos e olha que não trabalho na área de Ti.

    Já questionei algumas pessoas o porque de colocar uma função de líder de projetos com o nome de analista de negócios e obtive a resposta de que era poque o salário poderia ser menor e por isso essa pessoa poderia exercer o mesmo papel de um líder de projetos. Outra questionamento eu fiz aos colegas analistas de negócios que atuam como líderes de projetos, sobre qual o papel analista de negócios, e fiquei assustado com o que eu ouvi, eles simplesmente me falaram que o papel deles era liderar projetos e eles não sabiam o que era o papel do analista de negócios.

    Essa situação me deixou muito revoltado e percebo que os verdadeiros analistas de negócios devem cobrar, criticar e explicar sobre a sua função.

    • pv

      Oi Murilo,

      Já vi muitos analistas de negócios confundidos com analistas de sistemas, de suporte, com babás e secretárias de gerentes de projetos. Seu comentário me ensina uma nova confusão. Triste e desonesta se realmente motivada pelo salário menor – um absurdo!

      Mas, sinceramente, não sei até que ponto essa “massa” tem condições ou motivação para se rebelar, como sugerido por ti. Andamos, de uma maneira geral, bovinamente mansos.

      Abraços! Muito obrigado pela participação.

      Paulo Vasconcellos