É o Negócio, Beócio!

Todos os participantes de meus eventos se defrontaram com o título acima. Como era o penúltimo slide e pintava lá no finalzinho do dia, nunca mereceu muita atenção. Pouquíssimos sabiam o que significa beócio. Também foram poucos os que ficaram curiosos. Segundo o Houaiss:

be.ó.cio adj.s.m. 1.  que(m) é natural ou habitante da Beócia, região da antiga Grécia. 2. p.ext. infrm.pej. (indivíduo) grosseiro, ignorante ou ingênuo.

Não sei se dei sorte ou realmente não fui mal interpretado, mas nunca ninguém se sentiu ofendido com o título. Realmente os participantes de meus eventos nunca foram alvo da exclamação. Pelo contrário, minha intenção era dar-lhes de presente um clichê: É o negócio, beócio! Uma frase-projétil útil toda vez que alguém se esquece quem paga a dolorosa de nossos projetos. Resolvi hoje contar as origens e explicar o codinome do meu livro.

Bill Clinton, em um dos últimos debates contra Bush pai, bofeteou-o: É a Economia, Estúpido! Saiu vitorioso e construiu um superávit inédito na história daquele país. Bush filho assumiria a mesma cadeira tempos depois e deixaria como legado o maior déficit que aquela nação já viu. Mas essa é outra história…

Desde que criei coragem para escrever meu primeiro livro já tinha claro quem seria o maior homenageado: meu pai, Paulo Fernando Nogueira, que nos deixou há 12 anos, quando tinha só 49 anos de idade. Contador, foi o cara que me colocou na carreira de TI e a influenciou em diversos momentos chave. Qualquer dia falo mais sobre ele. Hoje nos interessa o beócio. O “velho” era meio erudito. Herdei dele a paixão pela leitura – de jornais (de papel), livros policiais e nossos quase sempre chatos tratados técnicos. Mas ele não gastava sua erudição em papos sérios. Não, usava-a apenas como pequenas alegorias em seus papos divertidos e xingamentos. Insulto favorito: beócio! Era dirigido, principalmente, contra jogadores perna-de-pau, juízes pouco honestos e motoristas barbeiros.

Quando defini o tema do livro, um Guia para a Formação de Analistas de Negócios, surgiu quase que imediatamente a frase-arma: “É o Negócio, Beócio!”. Tente pronunciá-la em voz alta;jogue-a na cara dos caras que começam projetos de software pelos ferros, caixinhas e código, hehe. É de fato um belo presente que ganhei e repasso. Sem custos!

Mas, obviamente, “É o negócio, beócio” não ficaria muito bem como título de um livro para analistas de negócios. Aliás, seria de certa forma um desperdício. Penso em utilizá-la como título de uma série! Sim, uma série de livros que terá um tema em comum: a eliminação da distância entre TI e o negócio. Ou, para usar uma casa do ‘embromation bingo’ [1], uma série sobre “Alinhamento Estratégico”. Qual será, então, o nome do livro? Por mim ficaria “Guia para a Formação de Analistas de Negócios”. Mas uma consulta ao nosso grupo de discussão [2] deve ser feita antes do fechamento da questão.

Ok, Mas Cadê o Livro?

Quero crer que minha arrogância nunca foi tão longe: logo no início do trampo de escrever o primeiro livro fui lá e cravei um prazo: 27/mar/2008. O divulguei aqui e em todos os eventos que apresentei até o final do ano passado. Influência dos processos ágeis, onde prazos e custos são “imexíveis”? hehe.. Não importa, o fato é que foi realmente um grande erro. Trata-se de um tipo de projeto que enfrento pela primeira vez. Pior: falando de um tema que ainda está em fase de ebulição / definição. Que não sirva como desculpa, mas o próprio BABoK V2 já apresenta aproximadamente 1 ano de atraso. E olha que o trabalho deles é feito a n mãos! Mas, como eu disse, não é desculpa.

Agora sim eu consigo trabalhar com um prazo definitivo: 25 de março de 2009. É uma quarta-feira e um pequeno evento acontecerá em Sampa. Para quem gosta de curiosidades: é dia de São Dimas, o “Bom Ladrão”. Achei coerente com um texto que ‘rouba’ boas idéias de diversos autores (também ladrões). E fica a 2 dias de completar exatamente 1 ano de atraso! Mas eu quero compartilhar um pouco da experiência de se escrever um livro, agora e em futuros artigos.

Desde o início decidi que utilizaria um processo iterativo e incremental. Tinha a intenção de tratar o projeto do livro como se deve tratar um projeto de software. Como eu não tinha um cliente pré-definido, com o tempo criei uma comunidade de clientes para o meu ‘software’. Todos os participantes dos eventos foram convidados a participar de um grupo de discussão. Hoje somos 357 pessoas de praticamente todo o Brasil. Tem até um ilustre participante em GMT -11. Quase todos os debates ali servem como feedback direto ou indireto ao meu trampo. Tanto que até acho a troca um tanto injusta… mas o grupo não reclama. No entanto, o retorno não vem da forma como eu esperava. Não vem tão mastigado, tão diretamente relacionado ao livro, que o grupo já conhece em uma versão bastante preliminar. Mas, é claro, não posso reclamar.

Reclamo só de mim: já escrevi o livro 3 vezes! Escrevi mesmo, do zero. Uma das versões, a 0.7, saiu do computador direto para o lixo.Não á fácil achar um ponto de equilíbrio. Explico: o texto é técnico. Mas não precisa ser chato. Minha principal referência neste ponto é “A Arte do Gerenciamento de Projetos“, de Scott Berkun. É um texto moderno, sério mas leve. Digo sem medo de errar que é o livro de TI que mais gostei de ler. E, claro, gostaria que o meu tivesse o mesmo tom e utilidade. É quase uma arte, e equilíbrio é a palavra-chave. Por exemplo: a tentação de mergulhar um pouco mais em uma parte ou técnica que mais me agrada é muito grande. Mas assim eu deixaria o texto ‘cambeta’. Quem já viu meus eventos sabe que defendo (teimosamente! hehe) alguns pontos de vista (leia-se conceitos, processos, práticas e ferramentas). Mantenho o tom (teimoso!) no livro. Mas não me esqueço que equilíbrio é a palavra-chave. Aliás, esqueço e lembro, esqueço e lembro, de uma forma iterativa e incremental. É o próprio Berkun quem diz: “Planeje voltar – escrever é editar.

Pois bem, início agora a última etapa do processo. Liberarei os capítulos individualmente para o grupo, até meados de fevereiro. É a versão 0.9, que também está sendo chamada de “release candidate”. Haverá um prazo para críticas e sugestões. As revisões ortográfica e gramatical, a cargo do mano jornalista Luiz Gustavo, acontecerão em paralelo. A única coisa que não será revelada nesta versão é a programação visual [3]. Uma surpresa que só será revelada na versão 1.0, no próximo dia de São Dimas, 25/mar/09.

Notas:

  1. Para quem não viu, o ‘embromation bingo’ é tema de uma hilária e provocativa campanha publicitária da IBM. Está no ar em alguns canais pagos, inclusive ESPN Brasil.
  2. Diversos participantes do grupo deram uma contribuição danada ao meu trabalho. Sem demagoria, considero-os co-autores. É claro que compartilharei com eles a responsabilidade de escolher um nome para meu (nosso!) primogênito.
  3. Além do conteúdo, a forma do livro me incomodou bastante. Se ele está sendo tratado como um software, como seriam realizadas as atualizações? Como aplicar patches e service packs em um livro texto? Apresento as respostas no próximo artigo. Amanhã! Inté!